Apu com sua mãe e irmã: filmado com comovente verdade

Apu com sua mãe e irmã: filmado com comovente verdade

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Clássico anti-Bollywood

Quando se fala em cinema indiano, muita gente evoca logo Bollywood. Mas também tem gente que pensa primeiro no total oposto deste mundo de fantasia, cores e música: pensa no cinema de Satyajit Ray. Por exemplo, em A Canção da Estrada (Pather Panchali, Índia, 1955), primeiro filme da chamada Trilogia de Apu, que abriu toda uma possibilidade de um novo cinema indiano. Apu, no caso, é o garotinho cuja família é central na trama que mostrava ao Ocidente, pela primeira vez, uma Índia mais realista.

O pai é um religioso que tenta ganhar a vida pregando pelas cidades e deixa a mulher muitos dias sozinha em uma aldeia, chefiando sua casa com o casal de filhos e a velha tia, com quem não se dá muito bem (interpretada por Chunibala Devi, já com 80 anos, antiga atriz que Ray foi reencontrar vivendo em um bordel, segundo contou Roger Ebert). O interesse de Ray, estreando na direção, é com a intimidade da família e os relacionamentos entre eles. É um cotidiano difícil, muito pobre, alternando esperanças, delicadezas e pequenas alegrias com tristezas.

O pai Harihar (Kanu Bannerjee) é um sonhador, em oposição à mãe Sarbojaya (Karuna Bannerjee), que vive na tensão da falta de dinheiro. As crianças tentam incluir algo lúdico entre os afazeres. Durga (Uma Das Gupta) está crescendo, começa a enfrentar a mãe, passa a não ter tanta paciência com o irmão caçula e se vê em um problema quando a joia de uma amiga some e ela é acusada do roubo.

Apu (Samir Banerjee) é testemunha de tudo isso. Ele é a figura central dos três livros de Bibhutibhusan Bandyopadhyay, que tratam de sua infância e amadurecimento. A Canção da Estrada cobre dois terços do primeiro livro. O Invencível (1956) vai desta terça parte final até parte do segundo livro. E O Mundo de Apu (1959), com Apu adulto, já se desvencilha mais da trilogia literária.

Mas os filmes são tão ligados que muitas vezes são considerados juntos em compêndios e enciclopédias de cinema. Mas o primeiro é o primeiro: é aquele que marcou a estreia de Ray, que, contam, nunca tinha dirigido uma cena atpe a câmera rodar em A Canção da Estrada – assim como seu cinegrafista (Subatra Mitra) nunca havia filmado nada, seus atores mirins nunca tinham atuado e mesmo Ravi Shankar, autor da trilha, era verde.

E é A Canção da Estrada que foi feito ameaçado desde o início de parar por falta de dinheiro, rodando com uma câmera 16mm emprestada, mas que conseguiu um financiamento a duras penas para, dali, ser premiado em Cannes e ser indicado ao Bafta. Não é pra menos. O visual do filme impressiona, é lindo e cru ao mesmo tempo (tanto as cenas na floresta quanto dentro do casebre, principalmente a tempestade). Transpira uma comovente verdade. É incrível que seja um trabalho de iniciantes sem dinheiro nenhum.

E isso vale também para o roteiro. O uso do trem como símbolo épico da modernidade, que é tudo o que não existe no povoado de Apu, onde a passagem de um homem que vende doces é um grande evento. E a resolução do plot do roubo das joias é, em si mesmo, uma pequena joia dentro de um tesouro maior.

A Canção da Estrada. Pather Panchali. Índia, 1955. Direção: Satyajit Ray. Elenco: Subir Banerjee, Karuna Bannerjee, Uma Das Gupta, Chunibala Devi, Kanu Bannerjee.

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